“Na verdade, a gente deve aprender que não existem coisas insignificantes e que todos os seres vivos fazem parte da grande teia da vida da qual não somos donos, apenas um de seus fios.”
Daniel Mundurucu
Marilene Paré em seu texto “Auto-imagem e auto-estima na criança negra; um olhar sobre o seu desempenho escolar” nos coloca as dimensões presentes nos alunos negros, dimensões essas que a autora constatou através das entrevistas que realizou.
A autora nos afirma que as histórias dos alunos que ela própria entrevistou lhe abriram feridas não cicatrizadas de aprendizagens da sua vida, que também são da vida deles e de todo o povo africano, trazido a força para aqui povoarem o nosso país.
Eu, ao contrário da autora, também me emocionei ao realizar a tarefa das entrevistas, mas pelo outro lado: branca, trago em minhas origens ancestrais um resquício indígena, pelo lado materno, povo que também traz uma história de perdas físicas e materiais: tratados como selvagens, domesticados feito bicho, trocaram nosso território por batons, enfeites, perfumes. Parece-me que pouco lutaram, nada fazendo para manterem, segurarem o que era seu de direito, sua terra, sua casa, seu sustento! Totalmente o inverso do povo africano, que pelo menos lutou pela sua liberdade, perdendo o jugo dos algozes na busca por uma vida digna. Ganhando com isso o direito de ser recompensado pela abolição, embora contestada ainda hoje pela afro descendência brasileira, mas que legalmente lhes deu liberdade de viverem sem dono, com seus esforços.
Nós, descendentes dos índios não tivemos a mesma sorte. Por quantos anos fomos marginalizados, sem terra, sem reconhecimento da cultura, sem nem ao menos expandir nossa raça, nossas crenças e cultos? Poucos sabem e fazem uso de costumes, tradições e ritos indígenas, senão as tribos que ainda vivem na mata, afastados dos centros urbanos, relegados a uma vida pedinte e mendigante: pedindo terras que eram suas ao Governo (que ainda se encontram nas mãos dos grandes fazendeiros!) ou nas ruas, vendendo seus artesanatos por míseros trocados. Sem nenhum tino comercial, sentam-se nas beiras das calçadas e nem levantam a cabeça para fazerem propaganda dos seus produtos. Numa apatia total. Num silêncio mudo.
E ouso dizer que fiquei muito feliz pelas respostas dos alunos que entrevistei. M desafia aos colegas e a escola dizendo que não quer ser negra. Nega sua cor, sua identidade afro, sua história ancestral e a oportunidade de ser mais feliz na sua infância, sem tanto sofrimento de vidas passadas (dos seus antepassados). Mas sua negação tem “atitude”: não me deixo vencer. Mesmo que talvez sua luta seja consigo mesma em não admitir que sua cor não tenha nenhuma vinculação com não ser menos que o outro, embora a história que o povo afro-brasileiro carrega seja de muita tristeza e degradação. Penso que M sentiu-se abalada quando eu mesma - a professora, o adulto, e não uma criança da sua estatura - lhe confirma que é preta. Pois essa afirmação fez com que voltasse para mim seus olhos, até então os tinha desviado, e pudesse, quem sabe, pôr essa sua certeza em dúvida: talvez eu não seja tão ruim sendo preta. Pois acredita na professora e nos adultos e alguma coisa dita por uma criança pode ser que não seja tão verdade assim!
Enfim, espero que após nossa conversa, M possa pensar um pouco mais sobre sua descendência, suas origens e confrontar com a minha. Tomara M tenha acreditado quando lhe falei que seu povo ancestral foi mais corajoso que o meu: fugindo da dor e da degradação imposta por um tempo em que isso era absolutamente normal (o povo era bárbaro e roubava tudo o que pudesse, com sua força, seu exército, vencia o mais forte e ficava com todo o prêmio que pudesse amealhar: terras, fortuna, mulheres, sonhos, esperanças...).
O aluno E, na nossa conversa, assumiu uma postura bem diferente de M: não negando sua cor, mas esperando que a professora diga claramente o que quer saber! E isso foi um ponto muito relevante, pois aqui pude ver que eu (a professora) também fui cheia de rodeios, e isso poderia ser dito assim: “talvez eu não quisesse me comprometer com a luta dos alunos diferentes em sua cor”. Com isso E me obrigou a encarar o assunto de frente, exigindo (através de seus devaneios, da sua atitude “não sei do que estás falando”) que eu verbalizasse a pergunta.
Com E também percebi o quanto pode ser ferido um menino, que não sabe ainda porque é diferente dos irmãos e da mãe e não tem o referencial negro do pai junto de si. Penso que se o pai de E fosse presente em sua vida ele (E) poderia mostrar aos amigos, colegas e vizinhos que sua cor tem uma origem: é igual ao pai. Assim E sente-se diminuído por essas circunstâncias que ele próprio ainda não entende como adversas: não tem origem familiar presente da sua cor, portanto não tem identidade afro palpável, perceptível. Portanto, assim como essa origem está só no plano imaginário, então pode permitir-se esses devaneios, passando a ideia de que não sei o que eu sou. Mas E sabe muito bem da sua origem: seu pai não lhe reconheceu, então não reconhece sua cor.
Espero que E possa ir aos poucos identificando e internalizando essas questões referentes ao seu nascimento, a sua história pessoal, e que possa identificar sua descendência afro-brasileira, aumentando sua auto-estima e melhorando sua auto-imagem. Que nossa conversa-entrevista possa produzir alguns questionamentos ao longo da vida de E, e ele possa recontar sua história aos seus descendentes com muito mais felicidade.
Já com K eu posso ter certeza de que continuará muito feliz, na sua cor, na sua descendência. E que construirá sua história nesses termos: sou feliz com a tonalidade da minha pele, que me identifica frente ao mundo e que me difere dos outros tons de pele.
Que eu possa melhorar minha prática em sala de aula com essas lições que M, E e K me proporcionaram nesse trabalho, relativas à condução de atividades que possibilitem aos alunos encontrarem em suas origens a sua história, e que possam contá-las sem medo de ser discriminados, na escola ou fora dela, permitindo assim que os alunos possam modificar sua própria história com atitudes de luta. Garantindo assim que sejam os próprios donos da sua vida e da sua história. Que possam escrever uma nova história da sua descendência, onde não apareçam os horrores do passado, mas sim suas lutas, sua identidade, sua imagem e auto-estima recuperadas. Revividas, reconstruídas pelo tempo e pela história da humanidade, da civilidade e da justiça.
Conforme as dimensões encontradas Por Marilene Paré, E e K são vítimas de preconceito racial. E nas piadas que ouve dos amigos, e K pela repetência. M sofre preconceito social, pois reflete em si o “status inferior”.
Quanto aos sentimentos originários da discriminação, E sofre pelo desgosto das piadas, M na vergonha de ser negra e na conformação de K, traduzida numa única fala.
Na proteção materna frente às situações de discriminação E diz que a mãe fica brava com as piadas e a mãe de M vai até a escola exigir da professora que não chamem a filha de preta. K demonstra essa dimensão no incentivo ao trabalho e os aconselhamentos da mãe.
Nas relações interpessoais libertadoras ou inibidoras do processo de aprender, os alunos E e M são muito bem sucedidos, seu desempenho escolar é relevante, chamando atenção pela inteligência e facilidade de aprendizagem. São os alunos mais ágeis na realização das tarefas, desenvolvem as atividades com rapidez e acerto. K apresenta dificuldade de aprendizagem, mas conta com muito ajuda da professora, que lhe dá uma maior atenção nas aulas.
Na percepção de si e a consciência de suas potencialidades os alunos entrevistados demonstram entendimento de que são inteligentes e esforçados nos estudos.
Ao término da primeira parte do trabalho posso dizer como Marilene Paré que: “cada entrevista era única”, pois cada um dos alunos mostrou, falou da sua origem familiar, racial, contando suas lembranças, revivendo fatos passados, que os tornaram o que são agora, nesse tempo presente.
Depois das entrevistas é que fui ler os textos sugeridos, por absoluta falta de tempo de fazê-las antes, e registro aqui a fala de Marilene Paré: “A educação de final de milênio, nas Américas, parece necessitar de maior qualificação no que diz respeito à abordagem afro-cultural.”
Não usando de desculpas, posso dizer o seguinte referente à colocação a cima: vindos da escola que viemos, não tivemos uma formação diferente de algumas posturas que adotamos relativas aos assuntos da formação racial, étnica e identitária do nosso país. Mas temos algumas oportunidades de estudo e de aprendizagem que nos permitem uma releitura da nossa prática, que pode permitir a alguns professores ousarem nesse sentido: promover um novo fazer em sala de aula, admitindo as diferenças étnicas e fazendo nova história desse tema.
Para finalizar, gostaria de concluir que essa entrevista individual seria um bom exercício a ser desenvolvido com todos os alunos, independente de sua cor, da sua diferença, pois nos mostraria na medida exata como estão todos os nossos alunos na sua auto-imagem, no grau da sua auto-estima e a sua identidade étnica. Poderíamos assim, auxiliar em casos específicos, para, como nos diz Marilene Paré “fazer brilhar o diamante interno da própria auto-imagem e auto-estima do aluno que por mim passar”e também a minha própria como professor.
Bibliografia
PARÉ, Marilene. Auto-imagem e auto-estima da criança negra: um olhar sobre o seu desempenho escolar. E Dimensões da expressão afro-cultural.
Este blog tem a obrigação de conter as minhas reflexões a cerca dos estudos feitos em cada interdisciplina estudada no curso de Pedagogia à Distância da Ufrgs.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Questões Étnico-Raciais
Entrevista com os Alunos Negros na Escola
Auto-Imagem, auto-estima e identidade dos Alunos Negros na Escola Diestchi
Comecei minhas entrevistas com uma introdução sobre o trabalho. Contei aos alunos que eu estava fazendo um trabalho da escola onde estudo, e que para isso era necessária a ajuda deles. Disse-lhes que era um trabalho sobre a História do Brasil.
Para dar início a entrevista propriamente dita, fiz essas cinco perguntas, na ordem:
1. De onde você veio?
2. Estudou em outra escola antes de vir morar aqui na Rondinha?
3. Como era lá nessa outra escola?
4. E aqui na escola Dietschi, como você se sente?
5. Como você se sente sendo aluno (a) negro (a) nessa escola?
Passo a registrar aqui as respostas dos três alunos a quem entrevistei:
A aluna K tem dez anos, é aluna do terceiro ano do ensino fundamental de nove anos, sua família aqui em Rondinha resume-se a mãe e uma irmã de dezessete anos que tem um filho de dois anos.
Respondeu a pergunta um me dizendo que veio de Caxias do Sul, nascida lá mesmo. Agora está morando aqui na Praia Azul (balneário próximo da Rondinha, onde se localiza a escola), e veio com 9 anos.
K contou que a mãe trabalhava cuidando de uma senhora idosa, e que essa havia falecido. Solidarizei-me com o fato e perguntei como ficaria o financeiro da família agora. K me diz que só a mãe trabalha, mas que ela e a irmã ajudam no serviço em casa, para que a mãe não trabalhe sozinha.
Passamos a pergunta 2 e K responde sim. Deu o nome da escola e sua localização. Conta que gostava de estudar na outra escola, que era muito legal, bem divertido. Tinha muitos colegas e brincavam de pega-pega, esconde-esconde. Mas lá não tinha parquinho (pracinha), como tem aqui, nem sala de computadores.
Perguntei sobre o lugar que morava, e também se brincava com as crianças da sua rua. Aqui disse que quase não tinha criança na sua rua, por isso se juntava com outras crianças em outras ruas do bairro para brincar.
Na pergunta 3, responde que a professora era braba! E que gostava de fazer contas de divisão e multiplicação, gostava mais de matemática. Também lia muitas histórias, porque gosto de ler, disse.
Então, chegamos à pergunta 4:
K diz que adora a escola Dietschi. Os colegas são legais, a professora é legal e muito querida, pois explica as tarefas, conversa bastante. Acrescenta que gosta das professoras e adora a aula de dança, me conta aqui que estão ensaiando uma apresentação. Diz que não gosta do momento da saída, porque os colegas vão embora e fica triste, mas gosta quando chega à aula, no início é muito bom, estão todos bem alegres.
Então para passar a pergunta 5, especificamente sobre sua cor, fiz um questionamento anterior. Pedi que me contasse o que sabia, o que já tinha ouvido falar sobre os primeiros moradores do Brasil. K me diz que começou o Brasil com os índios, e depois eles foram mortos.
Aqui lhe contei que sempre ouvia minha mãe dizer que a bisavó dela era índia, e que seu bisavô a tinha trazido da mata para morar com ele.
Então perguntei o que sabia sobre a história dos negros no Brasil. K me diz que os brancos pegaram os negros feitos escravos, e eles faziam todo o serviço dos brancos. Então conversamos sobre as novelas, disse que conhecia a escrava Isaura e achou a história horrorosa dos negros ali retratada.
Perguntei o que sua mãe lhe contava quando era pequena, diz que ouvia a mãe contar que quando era pequena pegou piolho, e a mãe disse que tinha que limpar sua cabeça, pois senão os colegas não iam querer brincar com ela. E também contava histórias dos negros escravos e dos bichinhos. E que os escravos tinham que trabalhar e os brancos só batiam, e até morreram de tanto apanhar!
Então, no meio dessa história toda, fiz uma colocação que vem me incomodando a tempos: disse para K que os negros foram muito corajosos, pois com toda sua história de escravidão, de ser arrancado da sua terra, de sofrer horrores ainda tiveram muita coragem. K completa: eles fugiram! Isso mesmo, fugiram, lutaram contra essa situação tão adversa. E se multiplicaram aqui no território brasileiro. Olha só o quanto se vê de população afro-brasileira: muitos negros, muita gente, espalhada pelo Brasil inteiro. E completei: E os índios, K quantos a gente vê por aí? Muito poucos me respondeu! Isso mesmo. O povo indígena foi dizimado, e não lutou tanto quanto os negros pela sua vida, pela continuidade da sua gente. Isso é perceptível pela população que vemos hoje, enquanto que os afro-descendentes estão em toda parte!
Aqui perguntei qual era a sua cor. K me responde enfaticamente: eu sou preta! Como minha mãe, meu pai e meus avós.
Então procedi a pergunta 5: Como você se sente sendo negra aqui na escola?
K me responde: __ Me sinto muito bem. Sou preta e vou morrer preta.
Como estávamos bem à vontade, perguntei se tivesse a oportunidade de trocar da cor preta para a branca, faria essa troca? K me respondeu com ênfase: __Não ia querer ser branca. É melhor na minha cor.
Ainda lhe questionei se já sofreu alguma discriminação, ou preconceito com relação a sua cor na escola, diz que não, nenhuma vez.
K apresentou-se bem à vontade com sua cor em toda a nossa entrevista. Somente ao final senti certo conformismo em sua colocação “__sou preta e vou morrer preta!”. Em nenhum outro momento mostrou preocupação maior, discriminatória, com relação as suas origens afro-descendentes.
Depois chamei a aluna M de oito anos, aluna do terceiro ano do ensino fundamental de nove anos.
Procedi ao mesmo questionamento, com a mesma introdução. Senti certo retraimento da sua parte logo de início, quando falei que o assunto era a história do Brasil e suas origens raciais.
Na primeira pergunta me respondeu que sempre morou aqui na Rondinha.
Respondendo a pergunta dois, me conta que estudou na escola vizinha, bem próxima da Rondinha, em Balneário Atlântico, na pré-escola.
No questionamento da pergunta três sua resposta se resume a estética, o físico: “a escola era amarela, tinha cerca ao redor, tinha um monte de rodas (pneus) que a gente brincava em cima e pulava dentro e escorregador. Lembra que “tinha que escalar a escada para escorregar e as classes (mesas) eram de madeira, baixinhas. Fala que tinha três professoras e que gostava de brincar de telefone sem fio, de esconder a boneca na caixa, dentro da casinha e os colegas procuravam.
Para a pergunta quatro suas respostas foram dirigidas aos momentos do recreio: gosto de brincar de perna-de-pau, de pular corda e pula-pula com os colegas. E também brincar de piquenique. Perguntei então, do que não gostava na escola? Ao que me respondeu:__não gosto de brigar com os colegas. Aqui tentei entrar numa conversa sobre porque brigaria com os colegas, me respondeu que não brigava.
Então, sentindo toda a sua tensão desde o começo da entrevista, fiz-lhe a pergunta:__Conheces alguma coisa da história do Brasil? Respondeu enfaticamente:__não! Perguntei-lhe se não lembrava o que conversávamos no ano passado, quando falamos muito dos moradores antigos do Brasil. Lembrou então que os índios foram os primeiros moradores, mas eles tiveram que ir embora porque os portugueses queriam mandar em tudo.
Nesse momento, adotou uma postura mais dispersa ainda que no início da nossa conversa: começou a me contar que conhecia uma escola só de índios em Porto Alegre, que essa escola era lá na rua da Brenda, do outro lado. Esses alunos índios, dizia M. usavam uma pena na cabeça e roupas vermelhas e marrons.
Como percebi desde o início da nossa conversa o quanto estava arredia, pois demonstrou o tempo todo que estava impaciente, fui diretamente à pergunta: __O que sabes dos negros, trazidos da África para o Brasil? Nesse momento enrijeceu na cadeira e virou o rosto para o lado oposto ao meu, postura essa que permaneceu até o final da entrevista. Dizendo que não sabia nada. Perguntei o que sua mãe lhe contava. M. respondeu que a mãe só lhe disse que os negros da África ficavam amarrados porque os brancos queriam que eles virassem escravos. Emenda que os negros fugiram porque apanhavam.
Aproveitei esse momento e perguntei sua cor. Não me respondeu. Então, como eu conheço toda sua família lhe disse: __Toda a sua família do lado da sua mãe é negra, do lado do seu pai são brancos, e tu qual é a tua cor?
__Eu sou preta. Essa resposta saiu muito ríspida, áspera.
E aqui na escola, como se sente sendo aluna preta? Perguntei. M não me responde diretamente a essa pergunta, mas diz que é bom vir nessa escola, pois tem os amigos para brincar.
Novamente lhe pergunto se tem algo de ruim aqui na escola.
M responde enfática, dizendo: __ O que é ruim é que às vezes a gente é chamada de preta! Novamente lhe perguntei que cor tinha sua pele. Aqui nesse momento dá uma risada e me olha meio desconfiada e diz: __Preta.
Fiz essa colocação: __Bom, se tua cor é preta e teus colegas te chamam de preta, porque é ruim? Ai então me conta uma história da outra escola, do tempo do prezinho (Pré-escola) em que a chamaram de preta e não gostava. Chegava em casa e contava para a mãe. Sua mãe pegou a bicicleta, ela própria foi pedalando a sua e rumaram para a escola. A mãe foi falar com a professora e M não participou da conversa. Não sabe o que conversaram, mas a mãe lhe disse que se a chamassem novamente de preta, contasse a ela. M diz que não aconteceu mais.
Como fiz com a K, comentei também com M sobre a coragem dos negros em lutarem por sua liberdade, fugindo para os Quilombos, procurando um lugar para viverem livres junto com suas famílias. Conquistando assim, com o passar do tempo e da história, sua liberdade. Novamente fiz um comparativo com os índios, relatando que aparenta não terem sido tão corajosos assim, pois não perpetuaram muitos da sua raça ao longo dos anos. Tanto que não conhecemos muitos índios por aqui, mas dos negros vemos muitos, em toda parte!
Levei M para sua sala e fui buscar E, que tem sete anos e estuda no segundo ano do ensino fundamental.
E é um menino muito difícil de conversar, dá muitas voltas em todas as respostas e fantasia muito. Não sei se me falou a verdade em seu relato inicial, pois contou muitas estórias que penso serem inverdades. Mas como não o conheço muito bem ainda, não posso afirmar se é real ou não o que me contou. Igualmente como os colegas anteriores, vou registrar nossa conversa.
Muito risonho e falante, iniciamos nossa conversa já no corredor, pois E é um aluno muito rápido nas conversas e na perspicácia. Logo na saída da sala queria saber o que conversaríamos, então fiz minhas considerações iniciais ali no corredor, enquanto nos dirigíamos para a sala no outro pavilhão.
Na pergunta um onde morava antes de vir para Rondinha, E responde que morava em Rio Grande, que nasceu lá. Mas que as coisas por lá eram muitos ruins. Então veio morar aqui.
E me conta que estudou em três escolas antes de vir para a Dietschi. Primeiro foi para a Santos Salvador, no balneário próximo daqui; depois foi para a escola Bem-Me-Quer, na sede do município e de lá foi para a Raimundo. Termina dizendo que agora está aqui.
Perguntei-lhe porque mudou tanto de escola, se morava bem pertinho da Dietschi. E me conta que aconteciam muitos acidentes e por isso tinha que ficar pouco tempo nas escolas. Perguntei que acidentes, E me responde: brigas. Eu era pequeno e brigava, depois fui crescendo e continuava brigando. E contou que brigava também com seus amigos.
Falando muito rapidamente foi me contando muitas dessas brigas, então tive que ir direcionado para os meus questionamentos. Perguntei o que gostava, o que tinha de bom nas escolas que passou. E responde que gostava de brincar com os brinquedos e cuidava para os colegas não os destruírem. Rapidamente passa a contar que tinha amigas e mais colegas. Continuando suas lembranças, fala da professora Paula que era muito boa, pois não gritava com ele quando incomodava. E que por isso ficava na hora do recreio fazendo as tarefas. A conversa foi longe, novamente cortei o assunto e direcionei a nova pergunta.
Questionado sobre o que conhecia da história do Brasil e seus moradores, E respondeu que não sabe direito. Perguntei se lembrava quando fomos fazer o painel dos recortes na biblioteca. E me diz então que lembra que fomos conversar e recortar sobre os africanos, os índios e não se lembra de recortes sobre os portugueses. Perguntei o que lembrava mais. Disse que não lembrava muito, mas numa atitude de negação, pois demonstrava certo ar matreiro enquanto dizia, querendo esconder o que já sabia ao não verbalizar esse conhecimento.
Nosso clima estava bem amistoso, pois já nos conhecíamos bem, então fui diretamente à pergunta: __E qual a cor da tua pele? Ao que me respondeu prontamente, num largo sorriso: __Moreno. Perguntei de novo: o que é moreno? __A minha cor. Encostei minha mão na dele, arregacei minha manga e perguntei: __ E qual a minha cor? __Professora tu é chocolate branco! E eu sou chocolate preto! Concluiu E.
Depois dessa resposta caímos na gargalhada. Então E começou a me contar que uma amiga da sua mãe havia dito que o E era afro-brasileiro e a mãe respondeu que não. Teci alguns comentários sobre sua cor mostrar essa afro-descendência, e a amiga da sua mãe estava certa ao dizer isso.
E passa a relatar que todo mundo dizia que ele havia “nascido no forno”, mas E não ligava, porque sabia ser brincadeira pela sua cor. Mas que sua mãe ficava brava com isso. Perguntei quem era todo mundo, E me diz que são os amigos da mãe, os vizinhos próximos de sua casa, os seus amigos.
Aproveitei e lhe perguntei como se sentia sendo aluno negro aqui na escola Dietschi. E me diz que se sente bem, mas às vezes não. Pergunto por que não, E responde que do lado da sua casa o chamam de “neguinho”. Insisto com ele na pergunta: e aqui na escola E, como se sente? E fala que se sente bem e alegre e que fica chateado quando um único colega (D) o chama de “neguinho” (pelo jeito que o faz), outros colegas podem até chamá-lo assim, mas ele não liga, pois chamam diferente do jeito que D o chama!
Como nas entrevistas anteriores contei a E minha descendência indígena, com a história da bisava índia, comentei também sobre a luta dos negros em serem livres, batalhando por igualdade junto aos brancos. Juntos concluímos que os negros são tão importantes quanto os brancos, o que é necessário é que cada um respeite o outro, do jeito que o outro é.
Depois das entrevistas com os alunos, me senti mais aliviada com o tema etnia. Estive um tanto apreensiva antes da atividade, mas durante o tempo em que fomos conversando, pude perceber o tanto que K é feliz em ser negra, concordando plenamente que tem suas origens étnicas e raciais negras e que não se sente discriminada em sua cor, nem percebe essa discriminação na sua vida.
K demonstrou ao longo da nossa entrevista que tem boa auto-estima e reconhece sua identidade afro-brasileira com muita tranqüilidade, entendendo que somos parte de uma família, que temos as características físicas herdadas de nossos parentes. E que isso faz diferença na sua vida, pois é feliz com a diferença que percebe entre ser de cor preta e outras pessoas serem brancas, índias, européias, enfim, de outra etnia, mas que isso não lhe diminui em nada, pois todos somos diferentes.
M rejeita sua identidade e possui baixa auto-estima, pois sua postura durante toda a nossa conversa foi de negação da sua cor. Inclusive negou que conhecia uma pequena parte, um pedaço da história da vinda do povo africano ao Brasil, pois foi minha aluna no ano passado e esse é um tema que procuro trabalhar durante todo o ano, em muitas oportunidades.
Já a postura de E foi de total descontração frente ao assunto da nossa entrevista. Embora tenha reclamado de ser chamado de “neguinho” de um jeito diferente pelo colega D, não mostra nenhuma restrição ao termo ser proferido pelos outros colegas, incomodando-o especificamente com esse colega. Percebo aqui certa animosidade entre os dois alunos. E demonstrou ao longo da nossa conversa que a mãe é quem tem mais rejeição a sua cor, visto ser ela branca, seus dois filhos anteriores também brancos, de um casamento com um homem branco. E nasceu de um novo relacionamento, então com um pai afro e que não vive com sua mãe. Sofre mais discriminações dentro de casa, pela sua cor, sendo e sentindo-se comparado com os irmãos brancos diariamente!
Penso que E tem baixa auto-estima que ainda pode ser melhor trabalhada com relação a sua descendência afro, mas que com muito jeito, reconheço, a escola pode vir a desenvolver uma melhora sensível nesse sentido, tratando a E, K, M e todos os outros diferentes (afinal, não somos iguais em nossas características físicas, na nossa aparência, nas posses financeiras, nas preferências, afros, índios, deficientes, especiais, ) de um jeito que possamos levar a todos os alunos a sentirem-se bem na escola, na cidade, na sua vida pessoal, familiar e social. Tendo as mesmas oportunidades e possibilidades de garantia de educação democrática.
Ao finalizar essa primeira parte do trabalho posso dizer como Marilene Paré que: “cada entrevista era única”, pois cada um dos alunos mostrou, falou da sua origem familiar, racial, contando suas lembranças, revivendo fatos passados, que os tornaram o que são agora, nesse tempo presente.
Essa entrevista individual seria um bom exercício a ser desenvolvido com todos os alunos, independente de sua cor, da sua diferença, pois nos mostraria na medida exata como estão todos os nossos alunos na sua auto-imagem, o grau da sua auto-estima e a sua identidade étnica. Poderíamos assim, auxiliar em casos específicos, para, como nos diz Marilene Paré “fazer brilhar o diamante interno da própria auto-imagem e auto-estima do aluno que por mim passar”e também a minha própria como professor.
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Auto-Imagem, auto-estima e identidade dos Alunos Negros na Escola Diestchi
Comecei minhas entrevistas com uma introdução sobre o trabalho. Contei aos alunos que eu estava fazendo um trabalho da escola onde estudo, e que para isso era necessária a ajuda deles. Disse-lhes que era um trabalho sobre a História do Brasil.
Para dar início a entrevista propriamente dita, fiz essas cinco perguntas, na ordem:
1. De onde você veio?
2. Estudou em outra escola antes de vir morar aqui na Rondinha?
3. Como era lá nessa outra escola?
4. E aqui na escola Dietschi, como você se sente?
5. Como você se sente sendo aluno (a) negro (a) nessa escola?
Passo a registrar aqui as respostas dos três alunos a quem entrevistei:
A aluna K tem dez anos, é aluna do terceiro ano do ensino fundamental de nove anos, sua família aqui em Rondinha resume-se a mãe e uma irmã de dezessete anos que tem um filho de dois anos.
Respondeu a pergunta um me dizendo que veio de Caxias do Sul, nascida lá mesmo. Agora está morando aqui na Praia Azul (balneário próximo da Rondinha, onde se localiza a escola), e veio com 9 anos.
K contou que a mãe trabalhava cuidando de uma senhora idosa, e que essa havia falecido. Solidarizei-me com o fato e perguntei como ficaria o financeiro da família agora. K me diz que só a mãe trabalha, mas que ela e a irmã ajudam no serviço em casa, para que a mãe não trabalhe sozinha.
Passamos a pergunta 2 e K responde sim. Deu o nome da escola e sua localização. Conta que gostava de estudar na outra escola, que era muito legal, bem divertido. Tinha muitos colegas e brincavam de pega-pega, esconde-esconde. Mas lá não tinha parquinho (pracinha), como tem aqui, nem sala de computadores.
Perguntei sobre o lugar que morava, e também se brincava com as crianças da sua rua. Aqui disse que quase não tinha criança na sua rua, por isso se juntava com outras crianças em outras ruas do bairro para brincar.
Na pergunta 3, responde que a professora era braba! E que gostava de fazer contas de divisão e multiplicação, gostava mais de matemática. Também lia muitas histórias, porque gosto de ler, disse.
Então, chegamos à pergunta 4:
K diz que adora a escola Dietschi. Os colegas são legais, a professora é legal e muito querida, pois explica as tarefas, conversa bastante. Acrescenta que gosta das professoras e adora a aula de dança, me conta aqui que estão ensaiando uma apresentação. Diz que não gosta do momento da saída, porque os colegas vão embora e fica triste, mas gosta quando chega à aula, no início é muito bom, estão todos bem alegres.
Então para passar a pergunta 5, especificamente sobre sua cor, fiz um questionamento anterior. Pedi que me contasse o que sabia, o que já tinha ouvido falar sobre os primeiros moradores do Brasil. K me diz que começou o Brasil com os índios, e depois eles foram mortos.
Aqui lhe contei que sempre ouvia minha mãe dizer que a bisavó dela era índia, e que seu bisavô a tinha trazido da mata para morar com ele.
Então perguntei o que sabia sobre a história dos negros no Brasil. K me diz que os brancos pegaram os negros feitos escravos, e eles faziam todo o serviço dos brancos. Então conversamos sobre as novelas, disse que conhecia a escrava Isaura e achou a história horrorosa dos negros ali retratada.
Perguntei o que sua mãe lhe contava quando era pequena, diz que ouvia a mãe contar que quando era pequena pegou piolho, e a mãe disse que tinha que limpar sua cabeça, pois senão os colegas não iam querer brincar com ela. E também contava histórias dos negros escravos e dos bichinhos. E que os escravos tinham que trabalhar e os brancos só batiam, e até morreram de tanto apanhar!
Então, no meio dessa história toda, fiz uma colocação que vem me incomodando a tempos: disse para K que os negros foram muito corajosos, pois com toda sua história de escravidão, de ser arrancado da sua terra, de sofrer horrores ainda tiveram muita coragem. K completa: eles fugiram! Isso mesmo, fugiram, lutaram contra essa situação tão adversa. E se multiplicaram aqui no território brasileiro. Olha só o quanto se vê de população afro-brasileira: muitos negros, muita gente, espalhada pelo Brasil inteiro. E completei: E os índios, K quantos a gente vê por aí? Muito poucos me respondeu! Isso mesmo. O povo indígena foi dizimado, e não lutou tanto quanto os negros pela sua vida, pela continuidade da sua gente. Isso é perceptível pela população que vemos hoje, enquanto que os afro-descendentes estão em toda parte!
Aqui perguntei qual era a sua cor. K me responde enfaticamente: eu sou preta! Como minha mãe, meu pai e meus avós.
Então procedi a pergunta 5: Como você se sente sendo negra aqui na escola?
K me responde: __ Me sinto muito bem. Sou preta e vou morrer preta.
Como estávamos bem à vontade, perguntei se tivesse a oportunidade de trocar da cor preta para a branca, faria essa troca? K me respondeu com ênfase: __Não ia querer ser branca. É melhor na minha cor.
Ainda lhe questionei se já sofreu alguma discriminação, ou preconceito com relação a sua cor na escola, diz que não, nenhuma vez.
K apresentou-se bem à vontade com sua cor em toda a nossa entrevista. Somente ao final senti certo conformismo em sua colocação “__sou preta e vou morrer preta!”. Em nenhum outro momento mostrou preocupação maior, discriminatória, com relação as suas origens afro-descendentes.
Depois chamei a aluna M de oito anos, aluna do terceiro ano do ensino fundamental de nove anos.
Procedi ao mesmo questionamento, com a mesma introdução. Senti certo retraimento da sua parte logo de início, quando falei que o assunto era a história do Brasil e suas origens raciais.
Na primeira pergunta me respondeu que sempre morou aqui na Rondinha.
Respondendo a pergunta dois, me conta que estudou na escola vizinha, bem próxima da Rondinha, em Balneário Atlântico, na pré-escola.
No questionamento da pergunta três sua resposta se resume a estética, o físico: “a escola era amarela, tinha cerca ao redor, tinha um monte de rodas (pneus) que a gente brincava em cima e pulava dentro e escorregador. Lembra que “tinha que escalar a escada para escorregar e as classes (mesas) eram de madeira, baixinhas. Fala que tinha três professoras e que gostava de brincar de telefone sem fio, de esconder a boneca na caixa, dentro da casinha e os colegas procuravam.
Para a pergunta quatro suas respostas foram dirigidas aos momentos do recreio: gosto de brincar de perna-de-pau, de pular corda e pula-pula com os colegas. E também brincar de piquenique. Perguntei então, do que não gostava na escola? Ao que me respondeu:__não gosto de brigar com os colegas. Aqui tentei entrar numa conversa sobre porque brigaria com os colegas, me respondeu que não brigava.
Então, sentindo toda a sua tensão desde o começo da entrevista, fiz-lhe a pergunta:__Conheces alguma coisa da história do Brasil? Respondeu enfaticamente:__não! Perguntei-lhe se não lembrava o que conversávamos no ano passado, quando falamos muito dos moradores antigos do Brasil. Lembrou então que os índios foram os primeiros moradores, mas eles tiveram que ir embora porque os portugueses queriam mandar em tudo.
Nesse momento, adotou uma postura mais dispersa ainda que no início da nossa conversa: começou a me contar que conhecia uma escola só de índios em Porto Alegre, que essa escola era lá na rua da Brenda, do outro lado. Esses alunos índios, dizia M. usavam uma pena na cabeça e roupas vermelhas e marrons.
Como percebi desde o início da nossa conversa o quanto estava arredia, pois demonstrou o tempo todo que estava impaciente, fui diretamente à pergunta: __O que sabes dos negros, trazidos da África para o Brasil? Nesse momento enrijeceu na cadeira e virou o rosto para o lado oposto ao meu, postura essa que permaneceu até o final da entrevista. Dizendo que não sabia nada. Perguntei o que sua mãe lhe contava. M. respondeu que a mãe só lhe disse que os negros da África ficavam amarrados porque os brancos queriam que eles virassem escravos. Emenda que os negros fugiram porque apanhavam.
Aproveitei esse momento e perguntei sua cor. Não me respondeu. Então, como eu conheço toda sua família lhe disse: __Toda a sua família do lado da sua mãe é negra, do lado do seu pai são brancos, e tu qual é a tua cor?
__Eu sou preta. Essa resposta saiu muito ríspida, áspera.
E aqui na escola, como se sente sendo aluna preta? Perguntei. M não me responde diretamente a essa pergunta, mas diz que é bom vir nessa escola, pois tem os amigos para brincar.
Novamente lhe pergunto se tem algo de ruim aqui na escola.
M responde enfática, dizendo: __ O que é ruim é que às vezes a gente é chamada de preta! Novamente lhe perguntei que cor tinha sua pele. Aqui nesse momento dá uma risada e me olha meio desconfiada e diz: __Preta.
Fiz essa colocação: __Bom, se tua cor é preta e teus colegas te chamam de preta, porque é ruim? Ai então me conta uma história da outra escola, do tempo do prezinho (Pré-escola) em que a chamaram de preta e não gostava. Chegava em casa e contava para a mãe. Sua mãe pegou a bicicleta, ela própria foi pedalando a sua e rumaram para a escola. A mãe foi falar com a professora e M não participou da conversa. Não sabe o que conversaram, mas a mãe lhe disse que se a chamassem novamente de preta, contasse a ela. M diz que não aconteceu mais.
Como fiz com a K, comentei também com M sobre a coragem dos negros em lutarem por sua liberdade, fugindo para os Quilombos, procurando um lugar para viverem livres junto com suas famílias. Conquistando assim, com o passar do tempo e da história, sua liberdade. Novamente fiz um comparativo com os índios, relatando que aparenta não terem sido tão corajosos assim, pois não perpetuaram muitos da sua raça ao longo dos anos. Tanto que não conhecemos muitos índios por aqui, mas dos negros vemos muitos, em toda parte!
Levei M para sua sala e fui buscar E, que tem sete anos e estuda no segundo ano do ensino fundamental.
E é um menino muito difícil de conversar, dá muitas voltas em todas as respostas e fantasia muito. Não sei se me falou a verdade em seu relato inicial, pois contou muitas estórias que penso serem inverdades. Mas como não o conheço muito bem ainda, não posso afirmar se é real ou não o que me contou. Igualmente como os colegas anteriores, vou registrar nossa conversa.
Muito risonho e falante, iniciamos nossa conversa já no corredor, pois E é um aluno muito rápido nas conversas e na perspicácia. Logo na saída da sala queria saber o que conversaríamos, então fiz minhas considerações iniciais ali no corredor, enquanto nos dirigíamos para a sala no outro pavilhão.
Na pergunta um onde morava antes de vir para Rondinha, E responde que morava em Rio Grande, que nasceu lá. Mas que as coisas por lá eram muitos ruins. Então veio morar aqui.
E me conta que estudou em três escolas antes de vir para a Dietschi. Primeiro foi para a Santos Salvador, no balneário próximo daqui; depois foi para a escola Bem-Me-Quer, na sede do município e de lá foi para a Raimundo. Termina dizendo que agora está aqui.
Perguntei-lhe porque mudou tanto de escola, se morava bem pertinho da Dietschi. E me conta que aconteciam muitos acidentes e por isso tinha que ficar pouco tempo nas escolas. Perguntei que acidentes, E me responde: brigas. Eu era pequeno e brigava, depois fui crescendo e continuava brigando. E contou que brigava também com seus amigos.
Falando muito rapidamente foi me contando muitas dessas brigas, então tive que ir direcionado para os meus questionamentos. Perguntei o que gostava, o que tinha de bom nas escolas que passou. E responde que gostava de brincar com os brinquedos e cuidava para os colegas não os destruírem. Rapidamente passa a contar que tinha amigas e mais colegas. Continuando suas lembranças, fala da professora Paula que era muito boa, pois não gritava com ele quando incomodava. E que por isso ficava na hora do recreio fazendo as tarefas. A conversa foi longe, novamente cortei o assunto e direcionei a nova pergunta.
Questionado sobre o que conhecia da história do Brasil e seus moradores, E respondeu que não sabe direito. Perguntei se lembrava quando fomos fazer o painel dos recortes na biblioteca. E me diz então que lembra que fomos conversar e recortar sobre os africanos, os índios e não se lembra de recortes sobre os portugueses. Perguntei o que lembrava mais. Disse que não lembrava muito, mas numa atitude de negação, pois demonstrava certo ar matreiro enquanto dizia, querendo esconder o que já sabia ao não verbalizar esse conhecimento.
Nosso clima estava bem amistoso, pois já nos conhecíamos bem, então fui diretamente à pergunta: __E qual a cor da tua pele? Ao que me respondeu prontamente, num largo sorriso: __Moreno. Perguntei de novo: o que é moreno? __A minha cor. Encostei minha mão na dele, arregacei minha manga e perguntei: __ E qual a minha cor? __Professora tu é chocolate branco! E eu sou chocolate preto! Concluiu E.
Depois dessa resposta caímos na gargalhada. Então E começou a me contar que uma amiga da sua mãe havia dito que o E era afro-brasileiro e a mãe respondeu que não. Teci alguns comentários sobre sua cor mostrar essa afro-descendência, e a amiga da sua mãe estava certa ao dizer isso.
E passa a relatar que todo mundo dizia que ele havia “nascido no forno”, mas E não ligava, porque sabia ser brincadeira pela sua cor. Mas que sua mãe ficava brava com isso. Perguntei quem era todo mundo, E me diz que são os amigos da mãe, os vizinhos próximos de sua casa, os seus amigos.
Aproveitei e lhe perguntei como se sentia sendo aluno negro aqui na escola Dietschi. E me diz que se sente bem, mas às vezes não. Pergunto por que não, E responde que do lado da sua casa o chamam de “neguinho”. Insisto com ele na pergunta: e aqui na escola E, como se sente? E fala que se sente bem e alegre e que fica chateado quando um único colega (D) o chama de “neguinho” (pelo jeito que o faz), outros colegas podem até chamá-lo assim, mas ele não liga, pois chamam diferente do jeito que D o chama!
Como nas entrevistas anteriores contei a E minha descendência indígena, com a história da bisava índia, comentei também sobre a luta dos negros em serem livres, batalhando por igualdade junto aos brancos. Juntos concluímos que os negros são tão importantes quanto os brancos, o que é necessário é que cada um respeite o outro, do jeito que o outro é.
Depois das entrevistas com os alunos, me senti mais aliviada com o tema etnia. Estive um tanto apreensiva antes da atividade, mas durante o tempo em que fomos conversando, pude perceber o tanto que K é feliz em ser negra, concordando plenamente que tem suas origens étnicas e raciais negras e que não se sente discriminada em sua cor, nem percebe essa discriminação na sua vida.
K demonstrou ao longo da nossa entrevista que tem boa auto-estima e reconhece sua identidade afro-brasileira com muita tranqüilidade, entendendo que somos parte de uma família, que temos as características físicas herdadas de nossos parentes. E que isso faz diferença na sua vida, pois é feliz com a diferença que percebe entre ser de cor preta e outras pessoas serem brancas, índias, européias, enfim, de outra etnia, mas que isso não lhe diminui em nada, pois todos somos diferentes.
M rejeita sua identidade e possui baixa auto-estima, pois sua postura durante toda a nossa conversa foi de negação da sua cor. Inclusive negou que conhecia uma pequena parte, um pedaço da história da vinda do povo africano ao Brasil, pois foi minha aluna no ano passado e esse é um tema que procuro trabalhar durante todo o ano, em muitas oportunidades.
Já a postura de E foi de total descontração frente ao assunto da nossa entrevista. Embora tenha reclamado de ser chamado de “neguinho” de um jeito diferente pelo colega D, não mostra nenhuma restrição ao termo ser proferido pelos outros colegas, incomodando-o especificamente com esse colega. Percebo aqui certa animosidade entre os dois alunos. E demonstrou ao longo da nossa conversa que a mãe é quem tem mais rejeição a sua cor, visto ser ela branca, seus dois filhos anteriores também brancos, de um casamento com um homem branco. E nasceu de um novo relacionamento, então com um pai afro e que não vive com sua mãe. Sofre mais discriminações dentro de casa, pela sua cor, sendo e sentindo-se comparado com os irmãos brancos diariamente!
Penso que E tem baixa auto-estima que ainda pode ser melhor trabalhada com relação a sua descendência afro, mas que com muito jeito, reconheço, a escola pode vir a desenvolver uma melhora sensível nesse sentido, tratando a E, K, M e todos os outros diferentes (afinal, não somos iguais em nossas características físicas, na nossa aparência, nas posses financeiras, nas preferências, afros, índios, deficientes, especiais, ) de um jeito que possamos levar a todos os alunos a sentirem-se bem na escola, na cidade, na sua vida pessoal, familiar e social. Tendo as mesmas oportunidades e possibilidades de garantia de educação democrática.
Ao finalizar essa primeira parte do trabalho posso dizer como Marilene Paré que: “cada entrevista era única”, pois cada um dos alunos mostrou, falou da sua origem familiar, racial, contando suas lembranças, revivendo fatos passados, que os tornaram o que são agora, nesse tempo presente.
Essa entrevista individual seria um bom exercício a ser desenvolvido com todos os alunos, independente de sua cor, da sua diferença, pois nos mostraria na medida exata como estão todos os nossos alunos na sua auto-imagem, o grau da sua auto-estima e a sua identidade étnica. Poderíamos assim, auxiliar em casos específicos, para, como nos diz Marilene Paré “fazer brilhar o diamante interno da própria auto-imagem e auto-estima do aluno que por mim passar”e também a minha própria como professor.
:
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Perdas
Por vezes nos deparamos com situações que nos exigem um pouco mais de atenção.
Lidarmos com as perdas em nossas vidas requer muita sabedoria.
Pois minha amiga Mara Braum teve duas vezes seguidas essas perdas: faleceu seu pai e logo em seguida seu marido.
Estou aqui, com muito carinho oferecendo meu ombro, meu abraço, meu colo!
Minha querida amiga, achegue-se a mim, estou aqui a sua espera.
Pense com carinho na minha proposta.
Bjus querida e conte comigo sempre.
Lidarmos com as perdas em nossas vidas requer muita sabedoria.
Pois minha amiga Mara Braum teve duas vezes seguidas essas perdas: faleceu seu pai e logo em seguida seu marido.
Estou aqui, com muito carinho oferecendo meu ombro, meu abraço, meu colo!
Minha querida amiga, achegue-se a mim, estou aqui a sua espera.
Pense com carinho na minha proposta.
Bjus querida e conte comigo sempre.
domingo, 7 de junho de 2009
FRUTOS PEADIANOS
No ano de 2007 tivemos a oportunidade de apadrinhar os alunos novos do Pead.
Essa proposta para nós, acadêmicas do Pead TC desencadeou na escola Dietschi um
Projeto semelhante:
Mara Braum, então professora da 4ª série, promoveu o apadrinhamento dos seus alunos com os meus, do 1º ano.
Foi um trabalho bem bacana de parceria, onde os alunos da 4ª ajudavam seus afilhados em todas as necessidades, inclusive um sala de aula, se houvesse um aperto dos alunos do 1º ano lá vinham os dindos auxiliarem, até cópia do quadro!
Tal minha alegria quando a professora do 3º ano nesse ano de 2009 veio até minha porta oferecer apadrinhamento dos seus alunos (que foram do 1º ano em 2007) para os meus alunos do 1º e 2º anos (classe multisseriada)!
Prova de que integração, cooperação e solidariedade ainda rendem bons frutos na sala de aulas...
Fiquei emocionada com a proposta!
Essa proposta para nós, acadêmicas do Pead TC desencadeou na escola Dietschi um
Projeto semelhante:
Mara Braum, então professora da 4ª série, promoveu o apadrinhamento dos seus alunos com os meus, do 1º ano.
Foi um trabalho bem bacana de parceria, onde os alunos da 4ª ajudavam seus afilhados em todas as necessidades, inclusive um sala de aula, se houvesse um aperto dos alunos do 1º ano lá vinham os dindos auxiliarem, até cópia do quadro!
Tal minha alegria quando a professora do 3º ano nesse ano de 2009 veio até minha porta oferecer apadrinhamento dos seus alunos (que foram do 1º ano em 2007) para os meus alunos do 1º e 2º anos (classe multisseriada)!
Prova de que integração, cooperação e solidariedade ainda rendem bons frutos na sala de aulas...
Fiquei emocionada com a proposta!
terça-feira, 2 de junho de 2009
Educação civilização e barbárie
Atividade de Filosofia.
Essa interdisciplina está me exigindo muita busca.
Não consigo dar conta das propostas sem ter que procurar outos materiais e fazer novas leituras, além daquelas solicitadas!
Educação, civilização e barbárie.
Brandão, 1985, p.7 nos diz:
“Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com educação”.
Entendemos então que a educação ultrapassa e vai além do ambiente escolar. E como tal se faz processo: há caminhada, envolve busca, acomodação, possibilidades permissão, tempo. Constrói-se fazeres, aprende-se saberes. Procuramos novos rumos, desenvolvemos capacidades, desafiamos possibilidades. Agimos e interagimos com outro, conosco, com novos e velhos conhecimentos. Buscamos agregar, juntar, abstrair, formalizar. Pensamos e repensamos. Refletimos.
Civilização é o estágio de desenvolvimento cultural em que se encontra um determinado povo. Este desenvolvimento cultural é representando pelas técnicas dominadas, relações sociais, crenças, fatores econômicos e criação artística.
O desenvolvimento de uma civilização ocorre lentamente, pois é um processo e vários fatores influenciam no seu desenvolvimento, podendo ser movida pela vontade do seu povo ou de lideranças.
O termo barbárie tem dois significados distintos, segundo o dicionário, mas ligados: “falta de civilização” e “crueldade de bárbaro”.
A palavra bárbaro é de origem grega. E designava, na Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais.
Conclusões:
1. Ao longo da história da humanidade, aprendemos que o “o homem venceu a solidão e a obscuridade das cavernas” e com isso conquistou o direito à formação de grupos, à confecção de seus próprios instrumentos, inventando suas necessidades e suprimindo-as pelo consumismo. Reinventando suas modernidades o homem conquistou espaços, destruiu a natureza, ganhou adeptos á sua causa, perdeu chão, destruiu a terra, mas continuou a querer mais. Virou sedentário e ganancioso. Quis mais poder do que já teve e tem. Para alcançar isso, não importa o preço. Galgou caminhos a qualquer custo!
2. Pensar a barbárie como coisa que ficou para traz é um pensamento um tanto equivocado, errôneo. A barbárie ainda hoje persiste, basta que liguemos a televisão, em qualquer canal. Todas as emissoras, sem nenhuma dúvida, retratam a barbárie que habita ao nosso redor: uma regressão ao homem primitivo. Noticias diárias: delinqüência, crimes, assassinatos, seqüestros, atrocidades, roubos e roubalheiras públicas, desvios de conduta, quebra das regras, matança indiscriminada. Morre-se por quase nada: um par de tênis, uma mochila, um óculos de sol, um jogo de futebol. Um professor apanha na escola de um aluno e o traficante é aplaudido por garantir sustento na comunidade!
3. Um professor hoje não pode ficar parado diante da tamanha violência que atinge nossas salas de aulas. Não é possível ficarmos anestesiados diante de tamanha crueldade que encontramos em alguns grupos, em determinados alunos, em vários locais. Necessário se faz que passemos a nos indignar com tantas coisas fora de ordem conforme Antonio Ozai da Silva fala: A partir do momento que não nos indignamos diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres humanos são descartáveis. Ao perdermos a noção do humano, o que Adorno denomina de consciência coisificada, nos tornamos coisa e tratamos os outros como coisas.
4. Diante da nossa responsabilidade de profissionais da educação, cabe a nós então, elevarmos nossa profissão ao poder que ela detém, de fazermos com que nossos alunos percebam a importância de entenderem o porquê de as barbáries acontecerem e o que se pode fazer para evitá-las. Precisamos ensinar aos nossos alunos a refletirem criticamente, levando-os a pensarem com consciência intelectual, cultural e social. Todos nós temos o dever de promover essa reflexão primeiramente em nós mesmos e depois levar essa discussão às nossas escolas.
Bibliografia:
CARNEIRO. Néri P. Educação e educação escolar. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/8120/1/educacao-e-educacao-escolar/pagina1.html
CIVILIZAÇÃO. Disponível em:
http://www.suapesquisa.com/o_que_e/civilizacao.htm
LOWI, Michael. Barbárie e modernidade no século XX. Disponível em:
http://www.sociologos.org.br/textos/forumsocial/Artigo%20de%20Michel%20Lowy%20sobre%20Modernidade.htm
SILVA, Antonio Ozai da. Educar contra a barbárie. Revista Espaço Acadêmico, nº 39, agosto de 2004. Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/039/39pol.htm
Essa interdisciplina está me exigindo muita busca.
Não consigo dar conta das propostas sem ter que procurar outos materiais e fazer novas leituras, além daquelas solicitadas!
Educação, civilização e barbárie.
Brandão, 1985, p.7 nos diz:
“Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com educação”.
Entendemos então que a educação ultrapassa e vai além do ambiente escolar. E como tal se faz processo: há caminhada, envolve busca, acomodação, possibilidades permissão, tempo. Constrói-se fazeres, aprende-se saberes. Procuramos novos rumos, desenvolvemos capacidades, desafiamos possibilidades. Agimos e interagimos com outro, conosco, com novos e velhos conhecimentos. Buscamos agregar, juntar, abstrair, formalizar. Pensamos e repensamos. Refletimos.
Civilização é o estágio de desenvolvimento cultural em que se encontra um determinado povo. Este desenvolvimento cultural é representando pelas técnicas dominadas, relações sociais, crenças, fatores econômicos e criação artística.
O desenvolvimento de uma civilização ocorre lentamente, pois é um processo e vários fatores influenciam no seu desenvolvimento, podendo ser movida pela vontade do seu povo ou de lideranças.
O termo barbárie tem dois significados distintos, segundo o dicionário, mas ligados: “falta de civilização” e “crueldade de bárbaro”.
A palavra bárbaro é de origem grega. E designava, na Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais.
Conclusões:
1. Ao longo da história da humanidade, aprendemos que o “o homem venceu a solidão e a obscuridade das cavernas” e com isso conquistou o direito à formação de grupos, à confecção de seus próprios instrumentos, inventando suas necessidades e suprimindo-as pelo consumismo. Reinventando suas modernidades o homem conquistou espaços, destruiu a natureza, ganhou adeptos á sua causa, perdeu chão, destruiu a terra, mas continuou a querer mais. Virou sedentário e ganancioso. Quis mais poder do que já teve e tem. Para alcançar isso, não importa o preço. Galgou caminhos a qualquer custo!
2. Pensar a barbárie como coisa que ficou para traz é um pensamento um tanto equivocado, errôneo. A barbárie ainda hoje persiste, basta que liguemos a televisão, em qualquer canal. Todas as emissoras, sem nenhuma dúvida, retratam a barbárie que habita ao nosso redor: uma regressão ao homem primitivo. Noticias diárias: delinqüência, crimes, assassinatos, seqüestros, atrocidades, roubos e roubalheiras públicas, desvios de conduta, quebra das regras, matança indiscriminada. Morre-se por quase nada: um par de tênis, uma mochila, um óculos de sol, um jogo de futebol. Um professor apanha na escola de um aluno e o traficante é aplaudido por garantir sustento na comunidade!
3. Um professor hoje não pode ficar parado diante da tamanha violência que atinge nossas salas de aulas. Não é possível ficarmos anestesiados diante de tamanha crueldade que encontramos em alguns grupos, em determinados alunos, em vários locais. Necessário se faz que passemos a nos indignar com tantas coisas fora de ordem conforme Antonio Ozai da Silva fala: A partir do momento que não nos indignamos diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres humanos são descartáveis. Ao perdermos a noção do humano, o que Adorno denomina de consciência coisificada, nos tornamos coisa e tratamos os outros como coisas.
4. Diante da nossa responsabilidade de profissionais da educação, cabe a nós então, elevarmos nossa profissão ao poder que ela detém, de fazermos com que nossos alunos percebam a importância de entenderem o porquê de as barbáries acontecerem e o que se pode fazer para evitá-las. Precisamos ensinar aos nossos alunos a refletirem criticamente, levando-os a pensarem com consciência intelectual, cultural e social. Todos nós temos o dever de promover essa reflexão primeiramente em nós mesmos e depois levar essa discussão às nossas escolas.
Bibliografia:
CARNEIRO. Néri P. Educação e educação escolar. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/8120/1/educacao-e-educacao-escolar/pagina1.html
CIVILIZAÇÃO. Disponível em:
http://www.suapesquisa.com/o_que_e/civilizacao.htm
LOWI, Michael. Barbárie e modernidade no século XX. Disponível em:
http://www.sociologos.org.br/textos/forumsocial/Artigo%20de%20Michel%20Lowy%20sobre%20Modernidade.htm
SILVA, Antonio Ozai da. Educar contra a barbárie. Revista Espaço Acadêmico, nº 39, agosto de 2004. Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/039/39pol.htm
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Tecnologias Assistivas
A Educação Especial está nos proporcionando excelente encontro de trocas através dos Fóruns que nos tem oferecido.
Ali nesse espaço temos momentos de estudos, na obrigatoriedade das leituras exigidas (e que nem sempre consigo dar conta!) e também nos oportuniza encontros ma-ra-vi-lho-sos com os colegas e professores.
Quero ressaltar que esses "encontros com os outros colegas" são os melhores momentos, pois conseguimos fazer uma rede de estudos interligada com nossas práticas, engendrando nossas reflexões. Permitindo então melhoria dos nossos conhecimentos através dessa interação de todos os pensares e fazeres que ali sobressaem.
Desejo que todas nós possamos realmente tirar muito proveito de tudo o que nos está sendo oferecido.
No texto de Rita Bersch ela conceitua TA "expressão utilizada para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuam para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiências, promovendo vida independente e inclusão...é buscar, com criatividade, um alternativa para se realizar o que deseja ou precisa, é encontrar um aestratégia de fazer do "seu jeito", valorizando esse jeito, aumentando capacidades, criando alternativas e envolvendo o aluno, desafiando-os a experimentar e permitir uma construção individual ou coletiva de novos conhecimentos".
Penso que isso se aplica também a nós, alunos peadianos, em diferentes escolas, com diferentes pensamentos e fazeres, com diferentes olhares e que somos levados a pensar juntos em nossas individualidades, as nossas práticas isoladas umas das outras pela distância, pelas vivências, pelo planejamento, pelo físico, pela diversidade, pelas especifidades.
Que bom entender isso aqui, dentro dessa interdisciplina que está nos permitindo pensar a inclusão de especiais, mas que também nos brinda com essa permissão especial de pensarmos em nós também como inclusos de uma maneira diferente de aprender.
Ali nesse espaço temos momentos de estudos, na obrigatoriedade das leituras exigidas (e que nem sempre consigo dar conta!) e também nos oportuniza encontros ma-ra-vi-lho-sos com os colegas e professores.
Quero ressaltar que esses "encontros com os outros colegas" são os melhores momentos, pois conseguimos fazer uma rede de estudos interligada com nossas práticas, engendrando nossas reflexões. Permitindo então melhoria dos nossos conhecimentos através dessa interação de todos os pensares e fazeres que ali sobressaem.
Desejo que todas nós possamos realmente tirar muito proveito de tudo o que nos está sendo oferecido.
No texto de Rita Bersch ela conceitua TA "expressão utilizada para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuam para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiências, promovendo vida independente e inclusão...é buscar, com criatividade, um alternativa para se realizar o que deseja ou precisa, é encontrar um aestratégia de fazer do "seu jeito", valorizando esse jeito, aumentando capacidades, criando alternativas e envolvendo o aluno, desafiando-os a experimentar e permitir uma construção individual ou coletiva de novos conhecimentos".
Penso que isso se aplica também a nós, alunos peadianos, em diferentes escolas, com diferentes pensamentos e fazeres, com diferentes olhares e que somos levados a pensar juntos em nossas individualidades, as nossas práticas isoladas umas das outras pela distância, pelas vivências, pelo planejamento, pelo físico, pela diversidade, pelas especifidades.
Que bom entender isso aqui, dentro dessa interdisciplina que está nos permitindo pensar a inclusão de especiais, mas que também nos brinda com essa permissão especial de pensarmos em nós também como inclusos de uma maneira diferente de aprender.
sábado, 16 de maio de 2009
Ancestralidade
Hoje tive um tempo e consegui fazer a leitura do texto "Em busca de uma Ancestralidade Brasileira", de Daniel Mundurucu.
O texto, de uma beleza ímpar, nos convida a muitas reflexões sobre a nossa vida presente.
Nele, Daniel exalta sua identidade étnica indígena, contando suas descobertas através das lembranças de como aprendeu a SER índio.
Conta que foi com seu avô que aprendeu isso, e foi introduzido por ele (o avô) no universo da sabedoria indígena.
Acrescenta que o "interessante é que muito desse conhecimento lhe foi passado sem dizer palavra alguma", relatando que via seu avô permanecer calado, numa calma posição de meditação profunda por horas, no silêncio de sua vida, na perfeita harmonia em que vivia.
Daniel Mundurucu diz que o silêncio talvez tenha sido sua grande primeira lição!
Essa passagem do seu texto me chamou a atenção para o fato de que eu tenho vivido meus novos e atuais tempos maternais, familiares e peadianos envolta em muito "barulho"...
Pois nesses novos tempos que tenho vivido, venho
falando muito,
ouvindo muito,
gritando muito.
Talvez essa oportunidade de refletir sobre o silêncio na vida do autor,
seja um forma de aprender que
"eu preciso de meu silêncio interior".
Que eu devo me permitir uma meditação profunda a partir da minha essência,
para buscar no meu silêncio íntimo o meu caminho,
o percurso do rio interior!
A natureza tem um tempo e nós devemos seguir o mesmo tempo dela.
Sem pressa, sem apressamentos,
sem gritos e sem tantas palavras.
Penso que meu tempo de hibernação interior é chegado.
Daniel Mundurucu diz:
"Aprendi que uma das maneiras mais interessantes de falar às pessoas é contar um pouco da nossa história, a fim de que possam pensar na própria vida e do jeito que ela está sendo construída... assim as pessoas percebem que somos a continuação de um fio que se constrói no invisível...Somos a continuação de um fio que nasceu há muito tempo atrás...Vindo de outros lugares... Iniciado por outras pessoas... Completado, remendado, costurado e continuado por nós. De forma mais simples, podríamos dizer que temos uma ancestralidade, um passado, uma tradição que precisa ser continuada, costurada todo dia".
Traz ainda a informação primordial que "as angústias é que nos levam a crises, e quem não tem uma ancestralidade não têm onde se apegar".
O índio não tem crise existencial porque
vive no presente,
sem esquecer do passado
e sem desejar o futuro!
Conta que ouvia do seu avô essa máxima:
se o momento atual não fosse bom, não teria o nome de presente.
O texto, de uma beleza ímpar, nos convida a muitas reflexões sobre a nossa vida presente.
Nele, Daniel exalta sua identidade étnica indígena, contando suas descobertas através das lembranças de como aprendeu a SER índio.
Conta que foi com seu avô que aprendeu isso, e foi introduzido por ele (o avô) no universo da sabedoria indígena.
Acrescenta que o "interessante é que muito desse conhecimento lhe foi passado sem dizer palavra alguma", relatando que via seu avô permanecer calado, numa calma posição de meditação profunda por horas, no silêncio de sua vida, na perfeita harmonia em que vivia.
Daniel Mundurucu diz que o silêncio talvez tenha sido sua grande primeira lição!
Essa passagem do seu texto me chamou a atenção para o fato de que eu tenho vivido meus novos e atuais tempos maternais, familiares e peadianos envolta em muito "barulho"...
Pois nesses novos tempos que tenho vivido, venho
falando muito,
ouvindo muito,
gritando muito.
Talvez essa oportunidade de refletir sobre o silêncio na vida do autor,
seja um forma de aprender que
"eu preciso de meu silêncio interior".
Que eu devo me permitir uma meditação profunda a partir da minha essência,
para buscar no meu silêncio íntimo o meu caminho,
o percurso do rio interior!
A natureza tem um tempo e nós devemos seguir o mesmo tempo dela.
Sem pressa, sem apressamentos,
sem gritos e sem tantas palavras.
Penso que meu tempo de hibernação interior é chegado.
Daniel Mundurucu diz:
"Aprendi que uma das maneiras mais interessantes de falar às pessoas é contar um pouco da nossa história, a fim de que possam pensar na própria vida e do jeito que ela está sendo construída... assim as pessoas percebem que somos a continuação de um fio que se constrói no invisível...Somos a continuação de um fio que nasceu há muito tempo atrás...Vindo de outros lugares... Iniciado por outras pessoas... Completado, remendado, costurado e continuado por nós. De forma mais simples, podríamos dizer que temos uma ancestralidade, um passado, uma tradição que precisa ser continuada, costurada todo dia".
Traz ainda a informação primordial que "as angústias é que nos levam a crises, e quem não tem uma ancestralidade não têm onde se apegar".
O índio não tem crise existencial porque
vive no presente,
sem esquecer do passado
e sem desejar o futuro!
Conta que ouvia do seu avô essa máxima:
se o momento atual não fosse bom, não teria o nome de presente.
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